Há 41 anos, em 1985, a Fórmula 1 testemunhou o nascimento de uma lenda no caos alagado de Estoril. A primeira vitória de Ayrton Senna no Grande Prêmio de Portugal não foi apenas um avanço, foi uma demonstração de talento bruto em condições que tornaram a máquina quase irrelevante. Aos 24 anos, em sua 17ª corrida na F1, o brasileiro entregou uma performance que definiria sua carreira. A chuva torrencial que castigou o circuito de Estoril em 21 de abril de 1985 criou um espetáculo de sobrevivência. Patrick Tambay, que terminou em terceiro lugar naquele dia, capturou perfeitamente a brutalidade das condições. «Aquela corrida foi um pesadelo. Choveu muito do início ao fim, tudo muito inundado, o teto de nuvens muito baixo e a visibilidade muito ruim. Foi a sobrevivência do mais apto», disse Tambay.
A Masterclass de Senna
Senna já havia demonstrado sua autoridade no fim de semana durante a qualificação, conquistando a pole position quase meio segundo à frente da McLaren de Alain Prost e um segundo inteiro de seu companheiro de equipe na Lotus, Elio de Angelis. Foi a primeira de suas 61 pole positions na carreira. Quando as luzes se apagaram, Senna liderou na primeira curva e nunca mais olhou para trás. Em 10 voltas, ele abriu uma vantagem de 13 segundos sobre o pelotão. Na volta 20, essa diferença já era de espantosos 30 segundos, apesar das condições piorarem a cada volta. A carnificina se desenrolava atrás dele. Riccardo Patrese e Stefan Johansson colidiram na quarta volta enquanto disputavam posição. Keke Rosberg rodou na volta 16, ficando parado no meio do circuito por várias voltas enquanto os carros desviavam dele. A desistência foi implacável, reduzindo a corrida a um teste de nervos e controle do carro. Senna liderou todas as 67 voltas completadas antes que a direção de prova encerrasse a corrida no limite de duas horas, três voltas antes da distância programada. Michele Alboreto terminou em segundo, o único outro piloto na mesma volta do líder, mais de um minuto atrás. O brasileiro deu uma volta em todo o pelotão, exceto no piloto da Ferrari. O engenheiro de corrida de Senna, Steve Hallam, reconheceu imediatamente o que havia testemunhado. «Vencer nessas condições exige um talento excepcional. Havia mais de 20 talentos excepcionais ali que, pode-se dizer, falharam miseravelmente naquele dia, e ele não. Ele trouxe para casa de forma convincente», disse Hallam. Até mesmo Senna reconheceu a linha tênue que caminhou para garantir a histórica vitória, que marcou o início de uma longa sequência de performances notáveis. «Foi uma corrida taticamente difícil, curva a curva, volta a volta, porque as condições mudavam o tempo todo», explicou Senna. «O principal era manter a concentração e se acostumar com a pista molhada que não tínhamos tido durante todo o fim de semana. Então, estávamos passando pela corrida com uma pista muito escorregadia. O carro estava deslizando por toda parte, era muito difícil manter o controle do carro.» Para a Lotus, a vitória encerrou um jejum de seis anos. Para a F1, anunciou a chegada de um piloto que reescreveria os livros de história do esporte com 41 vitórias em grandes prêmios e três campeonatos mundiais. Mas naquela tarde encharcada pela chuva em Portugal, Senna era simplesmente um jovem brasileiro provando que pertencia entre os melhores.








